Quarta-feira, 24 de janeiro de 2001 - O Estado de São Paulo
Made in Brazil
MARIO PRATA
Era impossível não olhar. A moça loira,
mais de um e setenta, se contorce entre a minha mesa e a do lado, onde
vai se sentar. Loira, naturalmente. No molejo da cintura fina, uma parte
do seu corpo passa a um palmo do meu nariz e a nenhum do pensamento.
Existe
um pedaço do corpo humano (só nas mulheres) que fica entre
as costas e o começo do antigamente denominado glúteo. Um
lugar que faz uma curva como se fosse para algum lugar, se esparramando
de mansinho lá para baixo. Existia, no espaço em questão,
uma leve penugem dourada (Machado diria doirada), uma penugem aveludada.
E ali, bem ali, tinha uma tatuagem.
Estava escrito para mim e para sempre:
Made in Brazil. Ali, na minha cara. E aquela menina sentou-se ao meu lado
sem notar que o pão rolou da minha mão e minha boca aberta
ficou. Made in Brazil tatuou-se em mim.
Liguei para a Maria (minha filha,
estudante de moda e que teria me reprimido naquele epidérmico momento).
Quem é uma modelo que tem tatuado Made in Brazil ali no, na, ali,
quando as costas...
– Mariana Weickert!
– Mariana o quê?
– Poderosíssima!!!
Pai, pelo amor de Deus...
Sabe o que é, Maria? Eu fui lá
para o Ritz ficar sozinho para pensar na crônica desta quarta-feira.
Queria escrever alguma coisa sobre São Paulo. E estava pensando
na cidade, nas pessoas da cidade, quando o Made in Brazil deslizou e aterrissou
ali.
E essa menina, minha filha, é a cara de São Paulo já
que, feita no Brasil e São Paulo sendo Brasil, estamos em casa.
Ou num bar, no caso o Ritz, de tantas Manoellas, Ciças e Daniellas.
A moça se chama Weickert, o bar se chama Ritz, Manoella e Daniella
tem uma porção de LLLL. Tudo Made in Brazil.
São Paulo,
Maria, cidade onde você nasceu, é isso. O bom de São
Paulo é que aqui tem pouco paulistano. Tem gente de todo lugar do
mundo e do Brasil. Puseram tudo num liquidificador e deu nós, liquefeitos
de paulistanidade. São Paulo é a cidade mais Made in do mundo.
Não é só o corpo da Mariana que é Made in Brazil.
A cabeça dela, também. Como a minha e a sua. Aquele pedaço
do corpo da modelo é o retrato da nossa cidade.
Aquela tatuagem
está nas costas e nos corações de tantos japoneses,
judeus, nordestinos, negros, alemães, italianos. E, se procurar,
acha gente da Bulgária e do Tocantins. O que eu quero dizer, Maria,
é que a cidade de São Paulo nunca foi tão Made in
Brazil quanto agora. Não importa se a penugem é loira, branca
ou negra. Ou até mesmo vermelha, como as cores do partido da nossa
loiríssima e já competente prefeita.
Infelizmente os buracos
das ruas, os morrinhos no asfalto, as calçadas, os prédios
pichados também são Made in Brazil. A violência, a
cegueira do padre Marcelo, a incompetência dos cartolas do futebol,
a cara do Maluf, a estátua do Borba Gato e o rodízio de pizza
também são fabricados aqui. Até a pamonha de Piracicaba
é gritada ali na esquina, bem debaixo do meu mineiro ouvido.
Neste
aniversário da cidade, eu queria esquecer todas as chacinas dos
fins de semana, queria esquecer o sofrimento do nosso governador, queria
me concentrar só nas costas da Mariana e sonhar que o mundo todo
é tão bonito quanto aquilo.
Sonhar pode, né Maria?
São Paulo, minha filha, é poderosíssima. Andava era
mal tatuada.
É de gente normal como a Mariana e a Marta Suplicy
que a cidade estava precisando. O resto é buraco, e buraco a gente
tapa. Nem que seja a tapa.
Já a tatuagem, você sabe disso,
é eterna enquanto dura. Como a beleza. Beleza nas costas e nos peitos
dessas mulheres maravilhosas que, num bom momento, lançaram suas
asas e tatuagens sobre as nossas mesas, a nos proteger, a nos dar o ar
de suas graças.
Bom apetite, São Paulo!
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