Quinta-feira, 10 de agosto de 2000 - Jornal da Tarde
Aiiiiiii!!! Mas como dói ser moderninho
Não basta apenas usar roupas de grife, saber as gírias da onda e freqüentar points badalados. A modernidade também pede orelhas furadas, pele tatuada e até algumas partes do corpo queimadas
Vida de gente que quer ser moderna não é fácil. Muitas vezes, até
dói. E não pense que a parte mais dura dessa saga é ter de estar sempre
antenado com as últimas novidades londrinas, freqüentar a Galeria Ouro Fino
para encontrar modelões diferentes ou percorrer todo o circuito fashion
alternativo - tipo o Mundo Mix, Mambo Bazar, brechós e raves. O difícil é
ter de encarar os limites da dor na hora de estampar uma tatuagem ou colocar
um piercing no corpinho.
Na verdade, não há nada de novo em se furar o nariz ou tatuar o corpo -
povos de diversas culturas faziam ou fazem o mesmo. O bodypiercing (furar o
corpo para se colocar algum objeto) já era praticado, por exemplo, pelos
povos antigos da Ásia e do Mediterrâneo. Mas isso não quer dizer que não
seja preciso se munir de doses cavalares de coragem na hora de enfrentar uma
agulha ou um furinho pelo corpo.
No Brasil a moda dos piercings vem conquistando cada vez mais adeptos nos
últimos anos. E, como todas as tendências, precisou estourar primeiro em
Londres e Nova York antes de ser adotado por aqui.
O bodypiercer André Meyer é um dos que já perdeu as contas de quantos
piercings tem no corpo e de quantos já fez em sua clínica. Dono da Body
Piercing Clinic, ele diz que as pessoas não se chocam mais ao ver um jovem
com ornamentos pelo corpo.
Bote inflável "Qualquer cultura tem um rito de passagem, principalmente na
adolescência", filosofa Meyer. Sua clínica na Galeria Ouro Fino faz em média
dez perfurações por dia - e, pasme, 70% das pessoas que vão em busca dos
`furinhos' pelo corpo são mulheres. Os lugares mais requisitados? "O umbigo,
o nariz e a língua", revela o perfurador.
Meyer, que jura "detestar sentir dor", é também adepto da Body Art - técnica
em que a pessoa faz perfurações pelo corpo com objetos tipo anzóis e garfos,
além de se pendurar no teto por meio de ganchos presos à pele.
No mundo das beldades, a onda também é bem-vinda. A modelo Leandra Aiedo, 22
anos, não se importa em sofrer se o objetivo for ganhar um ar mais
`contemporâneo'. Leandra chegou de Milão há uma semana, mas já fez dois
piercings nesse período - um na orelha e outro na língua. "Acho superlegal e
bonito, além do mais o piercing não dói tanto assim na hora de fazer."
Mas quem tem piercing há mais tempo recomenda: antes de colocá-lo na língua,
é necessário se alimentar bem - porque logo depois da perfuração a língua
fica amortecida, ou melhor, incha como um bote inflável, e não se pode comer
ou falar no mínimo por 24 horas.
A comerciante Roberta Stanisci, 19 anos, também conheceu as agruras da
modernidade. A garota tem três piercings e três tatuagens pelo corpo, e
completa seu visual com dreadlocks nos cabelos e roupas de andarilho. "Tenho
que secar meu cabelo sempre com secador porque os tufos incham de água e
pode até dar fungo. Pentear, nem pensar."
Vitrine ambulante A Nave Tattoo, também fincada na Ouro Fino, é outro lugar que supre
as necessidades dos que buscam enfeitar o corpo com piercings e tatuagens.
Igor da Costa Coelho, o proprietário, serve como vitrine ambulante para os
fregueses. Tem 15 tatuagens pelo corpo. Mas do alto de sua experiência, ele
alerta: em alguns lugares do corpo, como a costela, dói muito estampar uma
tatuagem. "Algumas pessoas passam mal, a pressão cai e temos que dar um
pouco de sal."
O procedimento funciona assim: quando o cliente chega e ainda não sabe qual
desenho fazer, Coelho dá dicas e conversa com a pessoa para se certificar de
que depois ela não vai se arrepender de ter o corpo marcado.
"Tem jovens que brigam com os pais e vêm aqui para fazer uma tatuagem, só
para chocar. Outras pessoas arrumam um namorado e querem tatuar o nome de
sua paixão no braço. Só que o namoro acaba e a tatuagem não", alerta o
tatuador.
Caso o arrependimento bata à porta do tatuado algum tempo depois, outra dor
poderá incomodá-lo - mas, desta vez, no bolso. O número de sessões para o
arrependido se livrar das estampas pelo corpo vai depender do tamanho do
desenho, mas cada sessão custa, em média, R$ 500. As técnicas usadas são
duas: a laser com ponta de rubi e a esfoliação.
Se livrar do piercing é mais fácil, já que eles também encontram entraves
pelo caminho - principalmente nos locais de trabalho. "Minha filha é
comissária de bordo e fez um piercing no nariz, mas a companhia pediu que
ela tirasse", conta a educadora Estela Bulgarelli. "Ela ficou arrasada, mas
compreendeu que não é todo mundo que acha isso bonito."
Tatiana Vicentini |