Segunda-feira, 29 de maio de 2000 - O Estado de São Paulo
Mulheres musculosas inspiram mostra em NY
NOVA YORK - Não se conhece ainda uma cultura em que o povo não tenha
se pintado, tatuado, remodelado ou simplesmente enfeitado de diferentes
maneiras e por diferentes razões. Desenhos, materiais ou objetos que
transformam o corpo numa peça de arte, temporária ou permanente, são uma
linguagem simbólica e representam marcas de identidade social ou individual.
Elas vão desde a inserção de ornamentos na pele - hoje conhecida como
bodypiercing e usada já pelos incas e povos antigos da Ásia e do
Mediterrâneo - ou a cor de esmalte para unhas que esteja na moda.
Essa forma de expressão é demonstrada em Body Art: Marks of Identity,
exposição que o American Museum of Natural History, em Nova York, encerra
hoje, depois de uma temporada de muito sucesso. Entre esculturas, pinturas,
gravuras, livros raros, fotografias e filmes, foram expostos mais de 600
exemplos dessa prática em todo o mundo, de 30 séculos atrás até hoje.
"Se o impulso de criar arte é um dos sinais que definem o ser humano, o
corpo pode ter sido sua primeira tela", compara o curador da exposição, Enid
Schildkrout, chefe da divisão de antropologia do museu.
Todas as principais formas de decorar o corpo conhecidas atualmente -
pintura, modelagem, henna, piercing, escoriação e tatuagem - já aparecem nas
culturas antigas e não há evidências indicando que uma ou outra técnica se
originou num único lugar.
Imagens nas paredes de cavernas já mostravam pessoas de corpo pintado. No
antigo Egito, mulheres e homens usavam o kohl, mistura de carbono e outras
substâncias orgânicas, para delinear os olhos e protegê-los de doenças.
Cêramicas descobertas em diferentes áreas da América do Sul, como uma
pequena estátua da cultura Jama-Coaque, que existiu há mais de dois mil anos
no Equador, revelam que as pessoas usavam piercings nos lábios e no nariz.
"O Homem do Gelo, encontrado nos Alpes em 1991 e com 4 mil anos de idade,
tinha tatuagens nas costas e nas pernas", lembra Schildkrout. "Essas
primeiras formas de arte corporal, como decoração, eram sinais de
civilização, individualidade e identidade social."
Cada cultura tem seus padrões de beleza e de corpo ideal. Em algumas regiões
da África, uma pele lisa não desperta a menor atração. Por isso, as pessoas
costumam fazer tatuagens com cortes, controlando com substâncias o processo
de cura das escoriações para formar saliências. Como esse é um processo
doloroso, quem tem mais cicatrizes é saudado por sua resistência e coragem.
Os desenhos feitos no corpo têm vários significados e também são usados em
tecidos e objetos artesanais.
Tradições e crenças - A decoração do corpo em rituais é
uma expressão de tradições e crenças em várias partes do mundo. Fotografias
de índios amazonenses vistas na exposição mostram como algumas tribos
costumam pintar o corpo dos meninos de preto para simbolizar a morte deles
antes do renascimento como adultos. Em Bornéu, os dayaks tatuam-se com
desenhos de um cachorro-dragão para protegerem-se de espíritos da floresta.
A arte corporal com maior número de exemplos na exposição é a tatuagem, a
mais popular forma de decoração corporal em todo o mundo.
Ela traduz inúmeras mensagens culturais, seja a de um rito de passagem,
compromisso com algum grupo ou simplesmente uma moda. "A arte de decorar o
corpo pode ser uma maneira de desafiarem-se valores sociais, conceitos de
beleza, de identidade e do uso do próprio corpo", diz Schildkrout. "Para
decifrarmos esta linguagem, é preciso entendermos os símbolos, os mitos e as
memórias individuais que são traçados no corpo."
(T.C.)
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